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Tai chi no Planalto


De: Severino Francisco


Em outras cidades, pratica-se tai chi chuan em espaços fechados ou em parques. Mas como Brasília é uma cidadeparque, ela é talvez a única onde se exercita essa terapia no meio do caos urbano. Pratico o tai chi chuan, religiosamente ou militarmente, há 20 anos. Eu sempre quis acessar alguma fonte de energia limpa, saudável, não-destrutiva e não-poluente, que nada tivesse a ver com drogas. Reza a sabedoria oriental que quando você quer mesmo aprender alguma coisa o mestre aparece. E, de fato, o mestre surgiu para mim na figura de uma mineira baixinha, delicada, leve e bem-humorada, chamada Tânia Carmo.

Certa vez, fui pautado para fazer uma entrevista com a mestra e pedi a ela que ilustrasse os efeitos benéficos do tai chi com um caso. Ela contou que havia um sujeito neurótico, desconectado, tenso, que se irritava com ninharias e tinha o corpo duro feito um cabide. E que, depois de praticar o tai chi, ninguém mais o reconhecia, pois se tornara mais leve, maleável, concentrado e pragmático. Curioso, perguntei quem era:“É você”, ela respondeu, apontando para mim. E eu copiando tudo, penosamente, com os meus garranchos, feito um palhaço.

Nada a ver com milagres. A prática do tai chi melhora a respiração, ativa a circulação e oxigena as células. Claro que o ânimo para enfrentar as pequenas guerras cotidianas melhora. Uma senhora contou que tinha um verdadeiro pavor de ficar presa em um elevador. No entanto, logo depois de ser iniciada no tai chi, se viu precisamente impedida de sair de uma dessas perigosas geringonças, que resolveu enguiçar, quando ela descia do prédio com mais três pessoas. E, para a sua própria surpresa, ela suportou o tempo de espera por socorro com uma insuspeitada tranqüilidade.

O tai chi proporciona uma síntese aparentemente impossível de serenidade com flama. Ou seja: você controla a sua energia, briga realmente quando quer e não por mero descontrole. Deveríamos ser mais pacientes com algumas coisas e impacientes com outras. Impacientes com corrupção, desonestidades, omissões ou injustiças sociais e mais pacientes com paixões pelo futebol, questões de trânsito ou as travessuras das crianças.

Para quem não sabe, o tai chi é originalmente uma arte marcial. Reza a história que tal arte marcial foi criada para que monges pudessem se defender dos assaltantes de estrada. Contudo, no decorrer do tempo, prevaleceram os aspectos terapêuticos do tai chi. Certa vez eu estava fazendo o exercício em casa, quando um amigo do meu filho, um moleque de sete anos, sempre armado de muita verve, ficou observando. E, de repente, saiu com esta: “Tio, eu só queria te avisar que os caras com quem você estava brigando já foram embora”.

Fazer tai chi é como tomar um banho de energia e jogar para o espaço tudo que houver de ruim. Estava de férias no sítio do meu sogro, situado perto de Alexânia e, claro, não deixei de realizar os meus exercícios. Percebi que alguém se escondia atrás das árvores e me observava, mas continuei desenvolvendo minhas evoluções marciais ou talvez marcianas. No entanto, no dia seguinte, o meu cunhado desvendou o mistério: “O caseiro está impressionado com os seus exercícios. Ele disse que você deve ser bom de pancada, e, numa briga, para te derrubar, só com um três oitão”.


Autor: Severino Francisco, jornalista (Transcrito, com autorização do autor, do Correio Braziliense, segunda-feira, 10 de março de 2008, caderno "Cidades", p. 22).